Artes/Fala aí!/Texto

Achados no Netflix: “Amy” e o espetáculo da dor alheia

amy

Eu me lembro exatamente do dia em que Amy Winehouse morreu. Eu estava em Paris visitando um amigo e, no fim de um dia qualquer, estávamos tomando uma cerveja em Moufftard. Os transeuntes passavam pela rua voltando para suas casas depois do trabalho, uns artistas de rua tentavam chamar a atenção dos turistas, a vida se desenrolava normalmente. Eis que o celular do meu amigo toca. Era a minha mãe, aqui no Brasil. É claro que gelei ao saber que era ela. Afinal, devia ter acontecido algo muito grave pra ela fazer uma ligação para um celular em outro país. Muito embora a notícia fosse pouco pessoal, ela era mesmo grave: “Amy Winehouse morreu”, disse. Minha mãe só havia me ligado porque sabia que eu era muito fã de Amy. Ainda assim, como acho que para todo mundo, a notícia, infelizmente, não me chocou. Havia algum tempo que a jovem inglesa de voz e temperamento fortes vinha em uma derrocada pessoal absolutamente devastadora. Eram constantes as histórias e fotografias de Winehouse completamente drogada, largada, destruída. Parecia que ela vinha morrendo aos poucos.

Nunca mais pensei em Amy, apesar de não ter deixado de ouvir suas músicas. Mas, por uma coincidência pouco explicável, ela “voltou” à minha vida recentemente. Dia desses, descobri uma versão que ela gravou de “Garota de Ipanema” e passei a ouvir em looping no meu Spotify. Poucos dias depois, ao perambular pelo Netflix, procurando alguma coisa para assistir, me deparei com o documentário dela. Já tinha passado por ele algumas vezes, mas então decidi assistir. Da equipe superpremiada de “Senna”, o doc é muito bem feito. Não apenas por saber alternar a cronologia dos fatos com as composições de Amy, que ganham novo significado quando entendemos a história por trás. Para além disso, o filme consegue fazer aquilo que as melhores obras de arte fazem: nos proporcionar a reflexão. É impossível, até pro menos empático dos seres, não terminar de assistir ao documentário completamente penalizado pela história daquela menina. Sim, porque ela era uma menina que foi despejada em uma vida da qual ela realmente queria sair, mas não encontrava forças.

A situação era muito mais complexa do que aquele argumento que diz “ah, mas quem se droga pede por isso”. Pede não. Um dependente químico tem uma doença que, como qualquer enfermidade, precisa ser tratada e medicada para que a cura venha. Não bastasse ter o mundo inteiro olhando pra ela, Amy ainda teve o infortúnio de encontrar a destruição naquilo que, muitas outras vezes, é a salvação: o amor. Seu relacionamento com Blake só trouxe de bom o álbum “Back to Black”, que é absolutamente brilhante. Mas, sabendo a história por trás, quase desejamos que esse álbum não tivesse existido, se isso a poupasse de tanto sofrimento. Um relacionamento claramente abusivo, em que uma parte se beneficiava da derrocada do outro, é capaz sim de destruir até a mais forte das mulheres. O problema é que Amy nunca disse que era forte. Blake fazia dela uma marionete, um joguete. Conseguia extrair o que queria dela. E extraiu tanto, que um dia se esgotou. É claro que é fácil culpa-lo, mas é igualmente inocente dizer que ele não teve culpa no cartório. E não só ele! O que dizer do pai dela, que se negava em levar a filha para a reabilitação, dizendo que estava tudo bem e que ela tinha contratos a cumprir, enquanto boa parte das pessoas via que não havia nada, absolutamente nada, de “tudo bem” naquela situação. E houve ainda uma terceira parte culpada: nós. Lembro-me que, à época de sua morte, havia uma aposta na bolsa de valores de Londres para adivinhar a data de sua morte vindoura. A mídia não perdoava, os paparazzi tampouco. E nós consumíamos essas notícias como abutres famintos. É como se presenciássemos uma pessoa se afogando pouco a pouco, lutando por ar e, ao invés de estendermos o braço para puxá-la para a superfície, apenas a empurrássemos ainda mais pra baixo.

Um dia, Amy sucumbiu. Seu corpo magro e frágil decidiu que não adiantava mais lutar essa guerra. Ela claramente estava sozinha. Amy tinha o mundo inteiro, mas não tinha ninguém. E aí o que resta é fazer um documentário para enaltecer seu talento e lamentar sua passagem meteórica por esse mundo que, definitivamente, não a merecia. Fomos cruéis, todos nós. E essas homenagens nos ajudam a redimir a culpa que tivemos em sua derrocada quando, no final das contas, o que deveríamos mesmo era pedir desculpas.

No momento em que escrevo este texto, ouço o álbum “Back to Black” e me entristeço por saber que aquelas palavras foram o início da sua destruição. Que ela tenha vivido um amor (?) tão abusivo que, pra viver, tenha precisado matá-la.  E, finalmente, que o mundo deixou de ter tantos anos mais com uma voz única, uma artista diferencial, uma menina que gritava por ajuda e ninguém ouvia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s